Camocim

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Praça do Amor - Camocim-CE

A cidade me acolhe
           em seu seio
como uma fêmea-mãe
recebe seus filhos
não importa se nascidos de seu ventre
ou
os adotados
                   como eu

Todas as tardes
quando se avizinha a noite
à beira de suas águas azuis
ela me sussura uma doce brisa
me toma pela mão
e me leva pela Beira-Mar
um caminho de sonhos
que vai da velha Estação Ferroviária ao Farol
(como se caminhássemos em direção
ao sorriso infinitamente belo
do sol
que
a essa hora
troca confidências
com nuvens carregadas de rubor)
embrenha-se
pelas trilhas que conduzem ao Lago Seco
desvela-me o belo
que viceja até onde
o olhar pode alcançar
- e um muito mais além -
como uma fêmea-menina
me namorando
despudoradamente

Quando
enfim
a noite
despenca de um céu tomado
de estrelas alcoviteiras
e já de volta ao centro
de seu mundo
ela me espia com olhos
de paixão
aponta-me ruas
ruelas
becos
esquinas
as que guardam histórias
de tantos amantes
e
amores
os mais ensandecidos
insinua-me a grama fresquinha
da Praça do Amor
até que
se decide
com um piscar malicioso
por um dos barcos ancorados
em seu Porto
como uma fêmea-sedutora
que sabe exatamente onde reside
a morada do desejo alheio

A madrugada
já rompe as vestes da noite
quando ela
bela como uma deusa
que se reinventa todos os dias
se despe lenta e delicamente
abre um sorriso
que carrega melodias encantadas
deita-se sob meu olhar
cego de alumbramento
e
pouco a pouco
ânsia a ânsia
abre-se toda
para meu encantamento
como
uma fêmea-mulher…

©Bosco Sobreira

Receita

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Ponha um muito de tua alma
um outro tanto de teu coração
pelos quatro cantos
da rosa-dos-ventos
de tua nova morada

E tua casa te será feliz!

Varra pra longe a tristeza
não dê assento às dúvidas
às inquietações
nunca convide a dor para um
papo-cabeça
não caia na roubada de oferecer
um cafezinho
- dois dedos de prosa -
à solidão
não vacile nunca com
os medos
não os aceite nem na soleira
da porta de teu vizinho

E quando for dia
(mesmo que seja noite)
abra bem a porta da frente
aos amigos reais
- os que te amam de mão-beijada-
dê-lhes a melhor espreguiçadeira
(e teu sorriso mais lindo)
ofereça-lhes um copo d’água fresquinho
-agora sim, um café quentinho-
e tudo o mais que teu coração mandar

E quando for noite
(mesmo que seja dia)
abra todas as janelas
escancare portas
grite os gritos mais atemorizantes
pra afugentar
os falsos arautos
das falsas alegrias
(as que vem do real ou do virtual
tanto faz)
que não duram mais que o brevíssimo
instante de um falso e doi(í)do prazer

E tua casa te fará feliz!

Por fim
quando
mais uma vez
o amor bater à tua porta
(é fácil reconhecer-lhe o toque)
deixe-o entrar

Deixe-o entrar assim:
(como se toca uma pluma
uma flor recém-nascida)

De mansinho
de mansinho…

©Bosco Sobreira

Filha do Sonho

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nunca te vi
mas te vejo há séculos

nada de ti conheço
mas te sei
os risos
os amanheceres
os pores-do-sol
as neblinas glaciais
que
quando em vez
me visitam os sonhos

não te conheço
o rosto
os olhos
(os olhos!)
a umidade da pele
as cores
com que os tristes e os alegres
te pintam o corpo
nem
o sabor de teus sabores

mas
tento
(desde tempos sem memória)
adivinhá-los
em cada mínima gota
que teu coração
esparge
(como respingos de sal
de teu infinito mar)
em minha alma inquieta

nada sei de ti
tudo sei de ti

©Bosco Sobreira